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quinta-feira, 18 de março de 2010

Prisão Interna


Eu não iria suportar, e acabei sentindo as lágrimas inundarem meus olhos, fazendo meu rosto virar apenas água, água e mais água, dor e sofrimento. Eu não era capaz de imaginar tal cena, eu não queria minha cabeça era um turbilhão, eram apenas vultos, não havia nada que se materializasse, nem mesmo eu conseguia me sentir, eu não estava ali, não pertencia aquele lugar, era só uma imaginação, o tempo não havia passado, eu estava dormindo, livros, eram só paginas de livros, capítulos inteiros, com fotografias, um filme talvez, sentimentos vivos, pessoas de verdade, não poderia ser real, como eu me arrependia, não, não saiam da minha cabeça, vozes idiotas, sumam daqui, eu não as quero, já estou confusa, não me confundam ainda mais, saiam. O vento, o frio, o frio ta me invadindo, meu peito ta congelando, cobertores, alguém traga cobertores, não estou agüentando, posso sentir meus lábios tremerem, minhas mãos transpiram, mas faz frio, um absurdo de frio, é noite, não, é dia, tem sol, mas não tem vida, o que ta acontecendo, Deus, alguém, socorro, alguém me ouça, eu quero fugir, alguém me ajuda, eu preciso sair.
Uma luta interta explode em meu peito, uma fera selvagem e uma doce menina, eu não sei quem é mais forte, eu não sei qual quero, este vento me envolve, esta loucura, a decisão, por que apenas uma? Não importa quem vença, haverá uma perdedora, e serei eu, não posso continuar, não, e se eu machucar mais alguém?
É um filme, um conto, terror, sangue, chuva, gotas grossas cortando minha pele, um machucado, cicatrizes, pele gelada, olhos vermelhos, dor, fogo, meu peito queima, minha boca grita, gritos sem voz, sussurros fervorosos, eu quero escapar, quero me ver livre, mas como fugir de uma peça que eu pedi para protagonizar?
Ajuda, não sei mais, quem chega perto morre, não quero mais inocentes caídos ao chão, não quero mais sangue, quero fugir, encontrar o meu caminho, andar sozinha sem precisar correr.
Já não dá mais, meu rosto está pálido, meus lábios sem vida, meu corpo gelado, estendido em um chao sujo, estou fraca, não sei se consigo, não sou eu, eu já nem me sinto mais.

Pulsos


Um coração. Batendo fraco. Já cansado. De funcionar. E gritar. Calado. Dá alguns salpicos. Rapidinhos, como se quisesse sobreviver. Mas logo pára. E espera. O amanhecer.
Barulho. Números. Um longo suspiro que corta a noite. Telefonema. Notícias. E todo mundo se junta para correr desesperadamente sem paradas ao quarto que anuncia. O coração se cala. E volta. Suspiros lentos.
Demora. Sinal de vida. Sem pressa. Batendo. Pouco a pouco. Unicamente. Com duplicadas.
Uma esperança desejada. Forças reunidas de um fundo próprio. O coração dispara, quer bater, se fazer ouvir, apita o aparelho sem exitar. Felicidade em volta, todos gritam, nada se ouve, e de repente, mais uma batida. O coração pára.

Insanidade


Em um 'clik' tudo começa, o pesadelo diário que se tornou parte da minha inútil realidade. Um mergulho no inconsciente que me transforma em personagem principal.
Caminhos escuros, corredores imundos, vazio e sombras. É sempre o mesmo roteiro, o mesmo cenário, os mesmos personagens. Sua voz ecoa em todos os cantos, vindo detrás das paredes, como uma alucinação prevista, desejada, entorpecente. Meus pés correm, sem configuração alguma, eles sempre têm sapatilhas de bailarinas. Uma saia rodada e uma camisa apertada, sem mangas, sem meias, sem qualquer coisa que possa me dar uma sustentação, é assim que eu sempre me encontro ao me perder.
Eu queria gritar, gritar até perder a voz, gritar enquanto canto todas as músicas entaladas na minha garganta, mas o silêncio me prende, e eu ouço suas rimas em alto falantes presos no teto. No fim da escada, há sempre duas portas brancas, e eu nunca sei qual me trará de volta.
Pra trás apenas um caminho que eu já decorei, segredos que eu já sei, pecados que já cometi, crimes pelos quais já paguei, mistérios que já descobri, e na minha frente...
Não há nada de novo aqui, mas sua voz me perturba. Todos os cantos explodem com sua canção, meu reflexo me faz arranhar as paredes, quebrar os lustres, trincar os vidros da janela, em tentativas infundadas de perder o equilibrio e cair. Eu só queria poder encontrar o chão, me misturar às minhas poças de sangue, ser um tapete para as mentiras, mas tudo o que me cabe é esta cela de vidro, que de transparente apenas têm teu canto, tua melodia que embala meu disturbio.

Coração Assassino


Te entrego meu coração, em corpo e alma, em chamas e ardente. Te entrego o coração sanguináreo, de quem ama. Te entrego o coração assassino, que escolhe o errado e faz sofrer. Te entrego em uma caixa de presente com um laço, este ordinário coração acelerado. Te entrego para sangrar em tuas mãos, este coração desamparado que mata de amor. Te entrego com um sorriso nos olhos, este coração dominador. Que seja teu o que pulsa a vida e mata em agonia. Que seja em carma em teus pensamentos o que alegra e faz morrer. Será teu, por toda a eternidade, o que nunca ousas-te perceber, e ao desânimo de tua vida, quem sabe irás ver, este coração acelerado que bate por você.
E ao me livrar desta angustia, te entrego este assassino e meu coração. Deitarei ao seu lado e segurarei sua mão. Fecharei os olhos, caminhando além, e no calor dos seus braços, enfim, morrerei.
Que seja vida, o que a morte me causou, que seja teu, aquilo que me matou!

Trinta Minutos

E vem o doce badalar da meia-noite. Não importa que horas sejam, será sempre meia-noite para o relógio antigo, ecoando no vazio do quarto. O ponteiro indo de um lado para o outro, por inércia, é o único retrato naquela penumbra. Uma pequena faixa entre a vela e ela. Parafina gasta, lutando contra o tempo enquanto aquele pavio, já cansado, persiste em se manter aceso com a força da ventania lá fora e os pequenos respingos de chuva a molhar o assoalho de madeira. O silencio predomina, são só murmúrios as lamentações dos lábios dela, e ainda que gritasse, as vozes em sua cabeça seriam mil vezes mais enlouquecedoras. Caminhos que poderiam ter sido feitos, vontades que poderiam ter sido preferidas... nada mais faz sentido. O passado é um templo e, de joelhos, ela já não quer mais rezar. Trinta minutos, esse é o tempo e não haverá nada além, apenas brasa e fumaça. Unhas a rasgar a madeira vermelha, olhos a perfurarem a noite em laminas cortante.
O que eles dirão quando o quarto estiver em chamas?
Água para abafar o silencio, costuras para pregar a boca calada, não há escapatória!
Pilhas novas para o que já é velho, dezoito minutos é tudo o que resta. Tudo será consumido pelo terror que as retinas podem criar. O ranger dos dentes é só mais uma música para um filme de terror. Relâmpagos, trovões, deixem a tempestade apagar o fogo, amenizem a dor, anestesiem o que quer se libertar. Um anjo a costurar as próprias asas, remendando o coração com pregos enferrujados.
Tic, tac, tic, tac, tic, tac, quase uma bomba relógio. Segundo a segundo, pontinhos desenhados em traços sangrentos, nove minutos é o que resta. As torneiras abertas, os vazamentos proibidos, a água já sobe pelas paredes. Manchas do que contarão historias, diários escritos no teto, um mundo submerso.
Um, um, um! Que os vidros sejam resistentes o suficiente para agüentar a pressão, que as paredes mantenham-se intactas para a cena final! Não há ar, inflamem os pulmões, é só mais uma tempestade a ressoar. Aquela vela e ela, a maldita vela e ela. Os olhos avermelhados, brasas que gritam por socorro. As unhas quebradas, traços do assoalho nos dedos. Essa é a condição, esse é o momento final.
Zero, zero, zero! O limite fora submetido aquele desafio e lá ela permanece. Uma volta inteira no relógio, um caminho árduo sem restantes, uma soma sem fatores, nada vezes nada igual ao vazio. Não, não, não! Lá vem, está chegando, mais uma vez, alguém pare o mundo! O tempo enlouquece, desaparece, engole, toma, ela, eu, o infinito, não há nada aqui, a vela e eu.
E vem o doce badalar da meia-noite. Não importa que horas sejam, será sempre meia-noite para o relógio antigo, ecoando no vazio do quarto. O ponteiro indo de um lado para o outro, por inércia, é o único retrato naquela penumbra. Uma pequena faixa entre a vela e ela. Parafina gasta, lutando contra o tempo enquanto aquele pavio, já cansado, persiste em se manter aceso.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Mil anos


Eu tenho sangue em minhas mãos. Um vermelho tão escuro, que se funde ao borrão do vinho. A neve cai ao lado da janela. Pequenos flocos de nada, que se misturam ao chão por onde meus passos foram negados. Meu corpo está nu, como sempre deveria ter ficado, mas este mundo é complexo demais para que eu possa entender. Não sinto frio, apenas o calor a produzir gotas de suor pelo meu corpo aquecido. O barulho que a madeira faz é tão entediante, que já soa como música aos meus ouvidos sensíveis. Não há mais intenções jogadas ao fogo, não há mais luz. Mais um gole deste líquido que desce me queimando a garganta, e não muda. Está tudo igual. Sem sons, sem risos, sem destinos. Eu poderia ser um mistério a mim mesmo, que eu não me importaria. Eu poderia ser apenas sombra, rastros deixados, que eu julgaria melhor do que esta imensidão que me consome. Um infinito de amarguras e lembranças desconexas. Se me fosse permitido, arrancaria eu mesmo estas malditas cicatrizes que se escondem em pele, ossos e músculos.

Minha respiração está fraca, nem mais sinto o ar em meus pulmões com eficiência. O frio é tão grande que faz meu corpo arder. Uma febre de mil invernos congelando o que já não existe mais. Eu ainda vejo o brilho dos teus olhos, tão forte e cortante quanto o fio do punhal em tuas mãos. Em minha língua está o gosto da ferocidade dos teus lábios, em minhas mãos a marca da tua essência. Você olha o nada, e como eu queria ter esta imagem em minhas retinas neste exato momento. Porque você olha o nada, mas você olha, você percebe, você sente. E eu apenas pressinto, invento, imagino. As batidas já estão cessando, falta pouco para mais um troféu na tua estante de crueldades. Eu sempre quis estar lá, se lembra? Era meu desejo, mas agora sei que sonhos podem ser tão pavorosos e desesperadores quanto pesadelos, basta que um clique os torne realidade. Eu deveria ter medido as minhas palavras. Mas não será esta a hora de me lamentar, eu preciso concentrar as forças para durar um minuto ou dois além do necessário. Eu ainda tenho um último desejo a ser realizado. Você prometeu.

Eu nunca quis cair, e tampouco pedi para subir, mas vontades são privilégios que não se consegue mais tão facilmente. Hoje qualquer um se torna anjo ou demônio, medido por suas roupas e gentileza, eles te codificam em um grupo, e caberá a ti cumprir as regras. Mas eu nunca quis ser celestial, eu nunca quis ser infernal. Eu apenas existi. Quedas de 20 andares causam morte a vocês, humanos, tão frágeis e patéticos que chegam a me causar frustração. Ele disse que vocês seriam perfeitos, cópias da luminosidade extrema. Mas são apenas pedaços descartáveis. Eu caí de 5 metros para uma criança. De mil quilômetros para um adulto. De milhões de anos luz para um astronauta. Um passo em falso e a rejeição de dois extremos se deram por completa. O que antes era branco escureceu-se até virar pó. Cinzas a serem jogadas com os ventos para nenhum lugar em certo. Mil anos e nada mudou. Mil anos e esse vazio ainda continua. Nada pode sobreviver, nada pode desaparecer. É só uma estratégia de jogo. Seja renegado pelo pai. Seja renegado pelo filho amaldiçoado. Seja apenas uma alma vagante, e estará tudo certo. Ninguém se importa.

Seus lábios se movem na sua própria língua, mas já estou tão longe que é apenas eco. Um sussurro talvez. Eu sei que a morte se aproxima, e isso me faz querer gritar. Eu me mexo desesperado, mas meus braços têm a força de uma brisa, que nada faz. Você prometeu. Nada iria acontecer, e eu já estou pronto para dormir um sono forçado. Ainda existe em mim a esperança de que irás me olhar, e quem sabe cumprir meu último desejo. Mas você não se mexe, ou quem sabe, nem mais está aqui. Meus olhos estão se fechando com certa rapidez, não consigo mais deixá-los a te contemplar em meu escuro. É o fim. O último nó a ser desatado em uma corrente de sangue. É tarde demais para mim, e eu preciso aceitar que procurei por isso. Não posso mais. Acabou. Este é o momento em que eu me despeço.

Eu só espero que tu não me entendas de forma errônea. Tudo isso se fazia necessário. Tu pedistes, e eu sou apenas uma nevoa a cumprir teus mais sórdidos desejos. Não sou bom o suficiente para cumprir minhas promessas, mas também não sou ruim o bastante para negar um último desejo teu. Eu me mantive intacto por todos esses minutos de tua agonia, para que pudestes me odiar em todas as formas. O amor me destrói, o ódio me regenera. Teu corpo será mais um de meus troféus, e sabias disso quando decidiste entregar-te ao incerto. Não tenho remorso, e tampouco sinto culpa. Não respire, não deixa que teu corpo insista em querer-te vivo. Não há mais possibilidades para isso. Apenas se deixe levar. Olhe em meus olhos, ainda que eles estejam fechados, olhe em meus olhos. Não há brilho algum neste momento, eles apenas refletem a solidão que eu criei. Deixarei teu corpo repousar em mármore para que te acostumes com o frio. Mil anos e nos encontraremos novamente, para que tu apliques em mim a tua tão merecida vingança. Eu cansei deste eterno vendaval de morte. Eu quero o sono que te prometi, e que agora te impeço de ter. Eu quero que o fim dos tempos se abasteça da minha angústia, e me deixe partir para sempre. Eu só quero ir embora.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Desabafo de um vampiro


Eu sou o mal, eu sou a perversão, a luxúria, a morte. Sou um andarilho da noite, e gosto disto, gosto das trevas, gosto do escuro, gosto da solidão. Eu não brilho na luz do sol e tomo sangue de animais como gostam de descrever um vampiro bom, isso é só estória, vampiros bons não existem. Eu gosto da dor dos olhos de quem mato, eu gosto de ouvir seus gritos implorando por suas vidas. Me sinto bem ao ver o pavor em seus olhos, e quando a morte já é quase certa, o gosto do sangue se esvaindo do seu corpo me é o melhor dos aromas. O sangue me faz bem, e não vou medir esforços para conseguí-lo. Como um animal que segue seus instintos de sobrevivência. Mas eu não serei cavalheiro. Eu serei seu pesadelo.
Não queira me encontrar depois da meia-noite, como um desejo sexual, porque eu não vou te deixar vivo pra contar história. Eu sou apenas a maldição que carrego, e faço dela a essência para noites de terror. Não quero mudar, o céu me negou ajuda quando precisei, e o inferno é um lugar bom demais para um ser como eu.
Eu quero guerra, eu quero sangue, eu quero dor.
Aprecio quando as moças correm ao me ver, elas sempre acabam caindo quando o salto quebra, e aí, ah, meu banquete estará posto.Fuja quando o frio chegar, corra o mais rápido que puder quando a lua se manchar de vermelho, pois eu estarei a te seguir. Não espere por redenção, mas implore por sua vida, e se quiser, acredite em Deus, porque a morte é uma certeza que aparecerá em poucos minutos. Ou talvez horas. Não sei. Sua tortura dependerá muito do meu bom humor.
Decepcionada?
Acredite, não serás a primeira, mon amour.
Pare de acreditar em mocinhos, vampiros nasceram para trazer horror, o medo, o caos. Te acalma, donzela, todas no fundo têm uma vã esperança de que possa existir algum príncipe entre os meus, mas acredite, isso é apenas uma máscara, porque no fim, todos querem a mesma coisa. Sangue.
Continue no teu cativeiro, leia mais contos inúteis sobre uma raça que não conheces, sonhe com os seres noturnos a te seduzir e depois te dar uma longa noite de prazer. Mas acrescente um leve toque às suas fantasias. Tu estarás deitada em tua cama ao final deste sonho. Coberta de sangue, coberta de dor. Teu amado terá ido embora com o teu gosto nos lábios, e procurará a próxima vítima, porque tudo o que tu és para nós, é apenas alimento, e não será diferente. É apenas... Instinto.