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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Jogo em Família - Parte 4


- Você sempre me fez perder a cabeça, veja agora, como é bom viver sem ela.

E sem pensar duas vezes, a lamina, antes limpa com tanto zelo, agora se manchava de vermelho sangue, deixando escorrer toda essência de uma vida perdida pela ingratidão. A loira fraquejou ao ver a cabeça de Gabriel rolar pelo tapete novo. Teve que se sentar na cama, respirar uma, duas, milhões de vezes, até ter coragem o suficiente para levantar, e forças para permanecer assim. O que a trouxera de todo aquele mundo sentimental, foram os gritos da madrasta, que inúteis, pediam por socorro. Deixou que um sorriso banhasse novamente seus lábios demoníacos, era disso que gostava, do som do desespero deles, da forma como seus olhos imploravam pela vida, de como podia ter o controle de todos em suas mãos, quando antes, todos achavam que era ela apenas mais uma garota perdedora.

Não demorou para chegar ao corpo estendido da mulher, que tinha as orelhas cobertas por sangue, e os olhos inundados de lágrimas.

- Eu não agüento mais...

Choramingou como se aquilo fosse lhe salvar a vida. Milena apenas tirou os fones do seu ouvido e os jogou em um canto.

- Sabe quantas e quantas vezes eu disse isso? Tantas que você não poderia contar. Se eu agüentei, você também pode agüentar mais um pouco. Mas olha como eu sou boazinha. Está vendo isso? É um pequeno experimento das aulas de química. Eu sempre fui uma garota muito inteligente, e ninguém duvidou disso, nem meu professor. Ele me liberou os laboratórios e, acredite, eu vou ajudar muita gente com isso. Mas ele precisa de um teste voluntário em humanos, senão, como poderemos comercializar? Eu vou ganhar uma puta grana se isso der certo, veja por esse lado, você vai morrer para salvar a vida de milhões de pessoas. Sorria, isso é uma coisa boa. É capaz até de você conseguir ir para o céu, sabia? Muitas pessoas sonham com isso, tem até gente comprando terreno no céu! E você vai conseguir de graça. Imagina a cena, Deus te esperando lá de braços abertos, para confortar a tua dor, acalmar seu coração. Imaginou? É lindo não? Deus gosta de quem se sacrifica, ele sempre os recompensa, essa é sua chance. Agora toma isso, é só um comprimidinho, vamos, não precisa de água. Isso, boa garota. Está doida pra saber o que vai acontecer não é? Eu também teria curiosidade. Bem, vejamos. O que eu te dei, é um composto natural de ervas indianas com uns toquezinhos a mais. Você já ouviu falar de remédios para diabetes, pressão alta e o caralho a quatro, sim? Então, esse comprimidinho vai fazer você relaxar igual um relaxante muscular, a única diferença, é que fará seus músculos doerem tanto, que você vai querer arrancá-los do próprio corpo. Mas você não terá forças. Porque sua pressão vai abaixar tanto, que você terá até dificuldades em respirar, mas não se preocupe, eu tenho tudo pronto para uma emergência, sem ar você não morre. Gritar? Bem, seria uma possibilidade, mas sua glicose estará tão baixa, que seu pâncreas vai começar a trabalhar adoidado e com tanto esforço e você não vai conseguir que nada saia da sua boca alem de sangue. Você já teve labirintite? Eu não, mas sempre disseram que é a pior coisa do mundo. Vamos ver se é verdade.

Milena não parecia muito preocupada em ter que carregar o corpo da madrasta nos ombros. A mulher era pesada, mas ainda sim, tinha um corpo muito bonito para uma pessoa de 40 anos. Simone estava quase desacordada, mas seu instinto de sobrevivência a impedia de se entregar ao desmaio, ainda que estivesse fraca o suficiente para não conseguir impor suas vontades ao próprio corpo. A visão embaçada dificultava em saber o que estava acontecendo ou, no caso, para onde estava sendo levada. Apenas sentiu o frio do chão de cimento da garagem entrar em contato com seus pés quentes e, como um vulto, logo depois, estar sendo suspensa por cordas de aço. Mas que diabos aquela garota estava fazendo?

- É terrível se sentir assim, não é? Vendo a vida e a morte passar na frente dos seus olhos e não poder se agarrar a nenhuma delas. Estar impotente até mesmo para suplicar por um pouco de compaixão alheia. Não conseguir gritar por salvação, ou derramar uma lágrima pela dor que extermina seu corpo por dentro. Eu sei bem como é. Eu senti cada uma dessas dores que você sente agora. Eu estive presa ainda que livre. Eu engoli gritos desesperados para não perturbar a sua vida. Eu me afoguei nas minhas próprias lágrimas, para que a sua festa não fosse manchada pelo sufoco a qual minha alma se entregava. Mas não se preocupe, eu não vou sugar sua vida como você fez com a minha.

Entre as ferramentas do pai expostas em um balcão mofado, um radinho de pilha começou a tocar a quinta sinfonia de Beethoven. Misturado à musica, o som de laminas sendo afiadas era entrecortado por murmúrios fracos de piedade, e pelo apito de uma chaleira preenchida com água fervente. Boa contradição. Depois de sentir o fio de corte do machado, Milena se levantou da poltrona de couro e desligou o fogão a gás. Encheu um balde qualquer e, como se estivesse brincando de molhar amigos com mangueira em um dia ensolarado, jogou toda a água no corpo da mulher, que nem se contorcer conseguiu, mesmo sentindo a pele toda ir sendo queimada lentamente. Para a garota, aquele desespero acumulado no fundo da garganta era algo tão normal, que não parecia crueldade mostrar aos outros como era a sua dor, fazê-los experimentar do mesmo veneno ao qual a drogavam todos os dias de sua vida.

Nenhuma palavra mais fora dita. Lembrar-se de todo sofrimento que passou para chegar até ali, fazia a garota fraquejar, e ela não podia. Tinha resistido às piores torturas previstas, não poderia se entregar no seu momento de glória, mas já estava perdendo o fôlego para trazer justiça à própria mente. Sem emoção, o machado era usado como arma final daquele espetáculo, ou ao menos, daquela cena, que aos poucos, ia deixando apenas pedaços de um plano apodrecer no chão ensangüentado.

O vermelho alheio, preso aos cachos loiros de Milena, ia manchando o tapete amarelo da sala, deixando pegadas de um passado que ia morrendo, para dar lugar a um futuro melhor.

Ainda calada, ela puxou o pai e o sentou em uma poltrona mais confortável, amarrou-o com a corda que antes suspendia as roupas no varal e sentou na sua frente, esperando que o mesmo acordasse. O que não demorou muito.

- Sabe pai, eu nunca senti o que estou sentindo agora. É como se, minha alma estivesse livre, sabe? Pronta para voar, desvendar os mistérios do mundo. Eu não sei dizer, mas uma emoção tão forte que parece que meu peito vai explodir. É mais do que a melhor sensação do mundo, é o êxtase da esperança. Saber que vou acordar amanhã e o sol vai estar brilhando lá fora. Que os pássaros cantarão e eu vou poder curtir a musica. Todos os olhos que se voltam pra mim não mais me julgaram, eles apenas me olharão como qualquer outra pessoa que caminha de cabeça erguida na rua. Desde que a mamãe morreu que eu não sinto isso. Ela fazia a minha vida ter sentido, e me dava forças para querer continuar e vencer. Sem ela, todas as razões e as vontades deixaram de existir, e você não soube suprir isso. Todas as vezes em que eu corri para você, encontrei seus braços fechados, e isso foi me matando, pouco a pouco. Saber a única pessoa a quem eu podia recorrer estava se tornando um estranho que não se importava com a minha existência. Você matou todos os meus sonhos como quem esmaga um inseto. Tirou de mim toda a certeza de vitória, mas hoje, eu sinto tudo isso voltar ao lugar. Eu sinto o mundo voltando a girar como deve, e sei que vou conseguir acompanhá-lo. Por isso espero que entenda que estou agarrando meu destino com todas as forças que ainda me restam, mas para que eu continue a viver e crescer, preciso arrancar as ervas daninhas que impedem meu caminho de florescer.

Uma pequena lágrima escorreu pela bochecha da garota, mas não era uma lágrima de dor, como tinha sido há tantos anos, era a lágrima mais pura e feliz que alguém já pode ter derramado. O brilho de seus olhos era refletido no dourado do punhal que penetrava o coração do pai da garota, que sufocava até a morte.

Era estranho pensar que aquela casa tinha sido palco do que antes era destinado à sua mente. Um conto de fadas que nunca poderia sair do papel e agora ganhava a realidade. Ela não era uma má pessoa, longe disso, apenas queria ter o que sempre lhe fora negado e agora estava em suas mãos. A felicidade que tanto ansiava, estava começando naquele jantar, ao qual ela continuou logo após lavar as mãos, deliciando-se com a macarronada que preparara especialmente para aquela comemoração.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Noite de Sangue


Era noite, inicio de madrugada na grande cidade. Luzes espalhadas por todos os lados deixava as diversões de Jane mais difíceis.

Uma casa, alvo perfeito. Quanto mais a mulher se aproximava, mais a noite se escurecia. Ventos, e uma densa névoa acompanhava os passos delicados e silenciosos da bela moça de cabelos longos e negros. Seu corpo parecia dançar no asfalto, sua cintura fina dava um balanço para suas pernas torneadas. Os longos fios negros dançavam com o vento, e a palidez de sua pele dava um brilho escultural ao seu rosto fino. O brilho de seus olhos passavam de um azul intenso para um rubro estonteante, mágico, fascinante.

Porta trancada, novidade. Nos dias de hoje as pessoas criam suas próprias prisões, se escondem atrás de metais, e caixas blindadas... Jane sentia falta dos tempos antigos, das ruas desertas, dos homens bebados, e de moças inocentes e desprotegidas vagando... Assim como fora um dia...

Não precisou mais do que um salto para que a moça chegasse na janela de um jovem, fazendo seu sobretudo voar com o pulo. Sangue... Cheiro forte, sangue puro, jovem. Os hormônios exalavam por aquele quarto, onde a inocencia a tempos não estava mais presente.

Havia um homem sobre a cama, 20 anos no máximo. Corpo atlético, cabelos pretos azulado na altura do rosto, pele clara mas com um bronzeado recente... Pobre homem...

Sua veia pulsava descontroladamente, Jane podia ouvir o barulho do seu coração bombeando o líquido vermelho que tanto desejava, sentia nos lábios o doce gostoso que invadiria seu corpo morto em alguns instantes.

Janela de vidro, uma pequena pedra no caminho da vampira, que com um toque tornou o vidro apenas pó. Seu corpo era magro o suficiente para passar pela fresta que lhe fora aberta, e agora, nada mais a separava de seu maravilhoso banquete.

Sua calça colada de couro preto reluzia com a fraca luz que vinha de fora, sua camisa branca tinha os primeiros botões abertos, revelando seu sutiã vermelho vibrante. Arma poderosa para sedução.

Eis que o homem acorda, assustado com o que vê sobre os pés de sua cama. Uma linda mulher caminhando em equilibrio. Esfrega os olhos rapidamente, os abre e fecha duas ou três vezes, antes de firmar seu olhar sobre o corpo que agora pressionava as botas ao lado se suas pernas na cama. Só poderia ser um sonho, um sonho quente e lindo, que ele faria questão de aproveitar até o fim.

Jane sabia aquilo que precisava para conseguir o que queria, era um simples negócio, trocas. Deixou seu corpo gélido sentar sobre o corpo quente do rapaz, que em um suspiro abraçou a cintura da vampira e passou a beijar seu pescoço, sem entender o perigo que se encontrava em cada toque.

Seus lábios mantinham-se pressionados contra a pele dela euforicamente, beijando-a, mordendo-a sem pudor algum. Jane apenas acariciava os cabelos do ingenuo homem que lhe acariciava, sem deixar de sorrir com o prazer que este lhe proporcionava enquanto se entorpecia de seu cheiro absurdamente delicioso para qualquer humano.

Dois corpos repousavam sobre o colchão macio. O de uma mulher morta, mas que sorria satisfeita, procurando por suas roupas espalhadas no chão, e o de um rapaz igualmente lindo, que se contorcia de dor, completamente nu.

Caio dormia, um sono perturbado. Seu corpo se movia descontroladamente, mordendo o travesseiro, a coberta caindo no chão, pesadelo talvez. Tudo o que conseguia ver eram vultos, uma linda mulher pálida, uma dor insuportável, suas forças irem se esvaindo de seu corpo, o toque gelado dela, o cansaço lhe dominando, cheiro de sangue, um liquido grosso em seus lábios, liquido quente e vermelho, e mais dor.

Não faltava mais do que uma hora para o sol nascer, e Jane já estava vestida, assistindo o nascer de sua criatura, que morria aos poucos, sem saber que eu acordar encontraria um mundo mais obscuro que seus próprios pesadelos, mas em troca, teria a beleza da vida eterna, sua juventude intacta e suas forças renovadas em cada pôr do sol.

Já estava na hora, e sem maior dificuldade a vampira pegou uma muda de roupas para vestir o corpo nu de Caio, e o carregou no colo em uma velocidade que a tornava apenas um vulto até seu apartamento totalmente escuro, protegido da luz. Deitou o corpo que ficava cada hora mais gelado em sua cama, deitando ao seu lado. Passou sua mao sobre o peito dele, encostando sua cabeça no ombro do mesmo, adormecendo... Logo os dois noturnos teriam mais uma fascinante noite de sangue e prazer.

domingo, 20 de março de 2011

Pecado


- Dezessete, dezoito, dezenove, vinte, vinte e um, vinte e dois, vinte e...

Lilian sabia que contar os passos era compulsivo, mas não lutava contra a maneira que tinha de passar o tempo enquanto caminhava. Sentia-se, de certa forma, mais segura. Acreditava que estar acompanhada dos próprios passos era melhor do que estar acompanhada de medo, afinal, noites como aquela trazia segredos que moças como ela não ousavam pensar.

Apressar o passo é algo automático quando você começa a ouvir um par de passos logo atrás dos seus. Quem era? Ela não tinha como saber, apenas corria desajeitada pelas ruas escuras e cheia de poças d’água. Se pudesse ao menos ver a sombra que a seguia! Mas era impossível, a noite seguia fria e sombria. O que fora fazer saindo tão tarde do trabalho, ah como queria o conforto da casa. Ou talvez... Não, moças puras não pensam nisso!

Continuou com seus passos apressados até que em um buraco qualquer o salto decidiu quebrar. Onde estava o par de tênis quando precisava? Não tivera como continuar, ele já estava ali. Os braços estendidos em sua direção, o rosto encoberto pelo breu. Lutou, ninguém poderia negar. Lutou com as poucas forças que tinha, não sabia ao certo se deveria, talvez quisesse aquilo, a sensação de perigo, aventura. Mas as conseqüências não pareciam tão boas. Em poucos minutos já estava sendo carregada pela rua estreita. Um carro no final dela, preto, discreto. Desistira de qualquer escândalo, pelo menos por enquanto.

O corpo encontrou o estofado confortável, o calor pelo aquecedor tornavam as coisas um pouco mais fáceis. Karl adorava ser o mistério da noite, e sabia como todas as suas vitimas agradeciam depois de serem pegas. Com ela não seria diferente. Moça nova, pele morena, lábios finos e olhos verdes. Era linda, sem duvida alguma, todas elas eram.

Ela sentira uma certa repulsa quando o corpo dele deitou-se sobre o seu. O coração estava disparado e isso parecia excitá-lo ainda mais. Suas mãos tocaram sua face com cuidado, nem parecia o homem forte que a pegara no braços a força.

- Eu não vou te machucar.

Ele disse em voz baixa, rouca, próximo ao ouvido dela. Um arrepio fora sentido, sem intenção.

- Só farei com que se lembre dessa noite para sempre.

Ele continuou a sussurrar. Suas mãos desceram do rosto para os seios, trazendo consigo os botões abertos da camisa dela, que continuava imóvel, sem saber o que fazer.

Poucos minutos para que toda sua roupa estivesse jogada no assoalho do carro, misturada às dele. Não fora capaz de resistir, seus lábios encontraram os vermelhos dele num beijo alucinado. Ele tinha esse poder, envolver nos braços mulheres que não conseguiam recusar seu convite. Era disso que sobrevivia.

Os vidros do carro se embaçaram. Do lado de fora, apenas o vendaval da madrugada, junto ao silencio do local deserto. Do lado de dentro, o calor dos corpos se embalavam em um ritmo frenético, gemidos e murmúrios, pedidos e sorrisos.

- Mais...

Cada pequeno desejo era atendido, cada pequeno pedaço de luxuria. Eram dois pecadores sem medo da punição, eram dois corpos entregando-se aos prazeres carnais.

O sol já iria anunciar sua presença no horizonte. Ele não sobreviveria se ficasse para contemplar o astro rei e sua magnificência. Vestiu a ambos, a contragosto dela. Alguns passos mais e já estavam no lugar onde ela percebeu que estava sendo seguida para a noite mais incrível de sua vida. Ele segurou sua cintura e lhe beijou o pescoço, lambendo o resquício de sangue que ainda escorria pelos dois furos que fizera. Sorriu e a encarou nos olhos.

- Essa noite estará para sempre em seu inconsciente, minha criança...

Selou os lábios e sumiu, como um raio que não pode ser visto. Ela piscou os olhos, duas, três vezes, até que conseguiu raciocinar onde estava. Por que tinha parado? Tinha tantos relatórios a terminar, não podia perder tempo. Olhou ao redor, já estava perto de casa.

- ... três, vinte e quatro, vinte e cinco, vinte e seis.

Lilian sabia que contar os passos era compulsivo, mas não lutava contra a maneira que tinha de passar o tempo enquanto caminhava. Sentia-se, de certa forma, mais segura, ainda que aquela sensação estranha estivesse presente em seu corpo. Sabia que logo passaria, mas não tinha certeza se queria que passasse. Seu corpo estava entorpecido por algum tipo de prazer que ela nunca tivera experimentado antes. Talvez fosse esse um dos mistérios que noites como aquela trazia a moças que, como ela, não ousavam pensar.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Bailarina e Maltrapilho


O som do violino vinha de longe, trazido por um par de pés despreocupados com o tempo. Uma melodia doce ao mesmo tempo em que aguda demais. Aquelas notas, tão únicas em sua excêntrica composição, ansiavam pela companhia da dançarina, que há pouco tirara os pés do chão. Vinha com maestria, trilhando um caminho sábio por entre as rosas de espinhos apontados em sua direção, perfurando a carne que, de tão cortada pela travessia improvisada, já nem mais sangrava a podridão dos condenados.


Cheiro de terra molhada, ótimo sinal para aquele que procura os servos de suas infinitas questões. O céu perdera a batalha e se deixara enegrecer como em todas as outras noites findadas de dor e contradição. As poucas gotas que sobraram, da antiga chuva devastadora, firmavam-se nas folhas destroçadas pela ventania da manhã. Uma a uma, iam caindo na calçada de pedra, escorregando como crianças até o leito merecido, onde ela, ali repousava.


Caixão de vidro para a bailarina promissora, a mãe queria que todos vissem seu pequeno pedaço de porcelana. Mal sabia que o corpo jazido ali, coberto por fitas de seda e cetim, era contemplado apenas por vermes, que lutavam entre si pelas melhores e mais saborosas partes do banquete. Mãos presas sobre o abdômen, um sorriso desenhado pelo funesto homem dos detalhes. A bailarina não sorria, jamais fora ousada o suficiente. Seus dentes brancos, cultivados a firmes ensinamentos, não tinham liberdade para entrar no palco. Bailarina apenas fingia, imitava, imaginava.


O violino cessou. Como num corte profundo ao vento uivante, findou suas cordas de aço renomado, e pousou no tumulo recém criado. O maltrapilho que tocava, abriu a gaiola de sua companheira, deu-lhe um beijo adocicado nos lábios e ordenou que levantasse. Bailarina assim fez, com um sopro que extinguira para sempre todo resquício de vida em seus pulmões inexistentes e, antes que pudesse abrir os olhos, Maltrapilho segurou suas pálpebras com dois dedos. Sua voz suave e grossa ronronou aos ouvidos delicados dela, cantando uma nova conquista.


- Não abra os olhos, Bailarina. Apenas dance, gire com seus braços para o alto, gaste suas novas sapatilhas.

Acompanhe-me, Bailarina, que para onde vou, o palco será apenas teu, e enquanto teus olhos mantiverem-se fechados, serás a protagonista do show que preparei para ti. Milhões irão glorificar-te. Aplaudirão teu espetáculo a cada dia, e uma chuva de rosas dançará aos teus pés toda vez em que eles repousarem.


Sem encontrar resistências, Maltrapilho apanhou seu violino e soltou a primeira nota de uma nova melodia. Bailarina levantou e começou a dançar. Por onde seus pés iam passando, pequenas flores iam crescendo, deixando uma marca de encanto para trás. A música corria todos corredores, incendiando vivos e mortos, presentes e perdidos. Aquele foi o momento em que Bailarina deu seu primeiro sorriso.


Um rodopio aqui, um salto ali, e o caminho ia se revelando, até que, num descuido desajeitado, uma fita prendeu-se no prego enferrujado. Bailarina não percebia, estava contente demais para ligar para qualquer uma de suas fitas, e mais a frente, Maltrapilho apenas sorria. A dança continuou, seguindo o ritmo enlouquecido do violino, e a cada centímetro que ia sendo conquistado, um pedaço da roupa rosa ia sendo deixado de lado. No final daquela jornada, restou apenas uma fita. Um laço tecido de amor, enrolado nos cabelos castanhos da jovem, que parou ao perceber-se nua.


- Não posso continuar assim, meu publico me espera! Dê-me roupas, Maltrapilho, e continuaremos a valsa que me prometestes ser eterna.


O sorriso do rapaz mal vestido, entortou-se e tornou-se aliviado. Sua musica abriu os portões do novo palco, e o banquete do dia estava confirmado.


- Não te preocupes, minha bailarina, para onde seguimos, tuas roupas não farão falta.


E assim seguiu, adentrando o caminho do inferno. Bailarina, ao seu lado, ia queimando aos poucos a única veste que lhe tinha sobrado, até que somente seus ossos estivessem bailando naquele túnel perdido. Mal sabia que a canção duraria para sempre, e por mais cansado que seus pés estivessem, estariam fadados a gastar-se até o final dos tempos.


No dia seguinte, Aurora viera jogar a terra sobre o vidro que deixara exposto para o enterro da filha. Encontrou sua porcelana sorrindo, assim como deixara, mas as sapatilhas, outrora novas, estavam gastas. Não importava, ela estaria sendo levada para um lugar melhor, ou assim acreditava.



quarta-feira, 2 de junho de 2010

Prisão de Ossos

Acordar. É essa a primeira vontade de quem é forçado a dormir. Abrir os olhos e encontrar a luz que esclarecerá todos os seus problemas, que o puxará de volta à uma realidade monstruosa, mas muito mais salvadora do que o vazio silencioso do sono. Não sou diferente de qualquer pessoa e, como tal, eu só queria acordar.


Talvez meus desejos estivessem mais bem guardados dentro de mim mesmo, abrir os olhos naquele dia, não foi a melhor coisa que fiz. Quando meus olhos se abriram, eu pensei continuar dormindo, desbravando aquele pesadelo eterno. Não me lembro muito da primeira imagem que se formou atrás da minha retina, minha cabeça doía tanto, que até o ruído dos ratos ao redor parecia um tambor. Quem sabe aquela dor fosse proveniente de algum machucado, justificativa lógica para a quantidade de sangue que escorria pelo rosto. Minhas mãos pareciam sumir com todos aqueles cortes e minhas roupas, oh Deus, eu estava coberto apenas por farrapos imundos. Cambaleei para o lado, numa inútil procura de levantar, mas meu corpo foi segurado por barras de ferro. O quê elas faziam ali? Até hoje eu procuro entender. Era tudo tão escuro, tão... sombrio. Até ela chegar.


Os saltos de suas botas pareciam querer esmurrar o chão, mas ela vinha graciosa. Calça escura, espartilho escuro, camisa branca. Cabelos negros, cacheados, na altura da cintura. Eu conhecia aquela silhueta de algum lugar, só não sabia que seria ela. Quando Camille virou, meu coração bateu mais rápido. Como um choque, meu corpo caiu para trás, de encontro à grade. Uma gaiola pequena, mas o suficiente para me manter prisioneiro de alguma insanidade. Só então pude perceber velas, várias delas, de todos os tamanhos, cores e aromas, espalhados pelo lugar. Um porão? Acho muito provável. O chão era imundo, tão imundo quanto minhas unhas que há pouco tentaram escavar para fugir. Ratos, baratas e insetos eram a companhia mais ilustre daquele local, que tinha ao fundo, uma cela escura. Que mal ela guardava ali? Acho que não queria descobrir.


Ela se aproximou, a feição de menina que sempre manteve em seu rosto já não ajudavam mais a entender seu semblante. O que ela fazia ali? O que eu fazia ali? Perguntas sem respostas, era tudo o que me dignava a ter. Sua mão fina atravessou a grade e tocou meu rosto com doçura, um carinho breve, um carinho que eu senti falta. Mas logo aquela carícia se transformou em raiva. Seus olhos chamuscaram de uma maneira sem igual e dos seus olhos escorreram lágrimas negras. Numa ânsia terrível de sair dali, confortá-la, confortar-me, joguei-me para frente, mas o cansaço me impedia de movimentos mais bruscos.


- Diz-me, o que faço aqui?


Só ao tentar falar percebi que minha garganta estava cortada, com um pano enrolado, ensangüentado, para que eu não gritasse. Eu daria tudo para ter um tom maior de voz naquele momento. Como era de se esperar, não tive resposta. Apenas um riso baixo, sôfrego, ecoando pelas paredes de pedra.


- Por favor, Camille, diz-me, o que faço aqui...?!


Pela minha insistência, ela virou-se, olhando-me com a mesma ternura de quem aprecia um amor. Levou o dedo aos lábios pintados em um batom vermelho, pedindo silencio. Era tão estranho vê-la daquela forma, tão pacata, tão acostumada a aquele horror. Com os mesmos gestos ternos e singelos, ela retirou um punhal do bolso. Havia sangue nele, havia o meu nome nele. Com toda delicadeza do mundo, ela levou a faca até os lábios, lambendo a lamina como se fosse algum tipo de doce. Esquivei-me, a tensão tomando conta de todos os meus músculos. Ao respirar, mais profunda e desesperadamente, engasguei com o cheiro fétido do lugar. Como ela conseguia? Suas narinas já pareciam acostumadas com a podridão do lugar. Ela já se tornara parte daquele lugar.


- Lembra-te do dia em que pedi, implorei para que não fugisse da minha vida, Andy? Era um dia de sol, uma tarde de domingo. Como naqueles contos em que os pais contam para as crianças. Havia borboletas voando entre nós, crianças correndo, cachorros, verde. Até hoje eu vou, todos os domingos, naquele parque. A árvore ainda tem os nossos nomes. Guardas o canivete que te dei? Disse que um dia seria útil, onde o deixaste? Já não importa mais. A única coisa que importa, é que me prometestes jamais fugir. Teus olhos brilharam contra a luz dos meus e teus lábios proferiram uma promessa que semanas depois tu abandonaste. Voou para longe, sem nem ao menos deixar uma explicação. Uma palavra. Sabe por quantos dias te esperei? Por quantas noites encharquei travesseiros em lágrimas saudosas? Deverias saber que eu não agüentaria, talvez, se houvesse uma despedida. Mas não, tu apenas foste sem destino certo. Acontece que, castigos servem para pessoas malvadas como você.


As palavras dela vinham carregadas em dor. Seus olhos brilhavam de forma maníaca. Não era, nem de longe, a doce garota que um dia me perguntara as horas. O que havia acontecido com ela? Não parecia perigosa, só parecia... carente. Eu estava perdido, completamente. Aquelas falas, eram verdades, atos impensados, mas era passado. Qualquer um poderia ter superado. Por que me torturava com aquilo?


- A saudade é algo que dói muito mais do que você pode imaginar, meu querido. É uma dor tão aguda, que chega a rasgar o peito em noites frias. Mas, com os anos, você aprende a se tornar imune a ela. Existem tantas cicatrizes, que seu corpo parece apenas um retalho do que fora algum dia. É isso o que me tornei, apenas um espantalho do que um dia fui. Não me culpo por isso, ao contrário, agradeço aos responsáveis.

O que ela queria com tudo aquilo? Qual era o real propósito? Falava de maneira tão aleatória, que eu não tinha certeza se era uma vingança contra mim, ou apenas uma forma que ela tinha de crucificar o que o tempo havia transformado, como ela dissera, em farrapos.


- Quais? Quais os responsáveis?


- Todos, querido, todos. Você sabe como se deve contar a uma menina de 4 anos que sua mãe morreu? Devem-se usar palavras doces, acarinhá-la e então, quando ela chorar, abrigá-la nos braços e mentir que está tudo bem. Mas não, eles apenas gritaram que era para eu parar de chorar se não quisesse apanhar. Disseram que minha mãe morrera de desgosto por ter uma filha como eu. Você sabe o que é ver seu pai virar um alcoólatra que chegava todas as noites fedendo a bebida e vendo que seu corpo tinha mudado, sentir tesão por você? Você sabe como é nojento tê-lo se esfregando em seu corpo inocente, tampando sua boca com força para que não pedisse por ajuda enquanto ele tirava sua pureza de menina? Sabe o que é ver todos os seus amigos irem embora quando seu dinheiro tinha virado água? Como é desconfortável as camas em um orfanato e como é triste ver todos arranjarem uma família quando você já não tem nada? Ou o quanto é sofrido ser lançada ao mundo apenas com a roupa do corpo, cultivando apenas um único laço de amor? Ter de vencer sozinha, depois das surras que o mundo lhe deu? Não? Pois eu vou te contar, não são as melhores sensações do mundo e não é nada agradável ser abandonada. Ver todos a quem você ama fugirem como ratos, perder tudo o que tinha apenas por não querer ser estuprada todas as noites. Agora, vamos, faça o que tem vontade. Julgue-me insana por eu querer prender ao meu redor todas as pessoas, para que elas não possam mais ir embora. Mostre-me que meus atos são distorcidos, porque é isso o que eu quero. É isso do que eu preciso. De alguém que segure a minha mão e me mostre que os horrores do mundo só estão nessa minha cabeça sórdida, e que há algo melhor além desta fortaleza de pedra. Eu só preciso de um abraço, quando todos ao meu redor parecem perder os braços e desviarem. Eu só quero uma palavra de consolo, mas as bocas parecem mofadas em suas próprias monstruosidades para dizer qualquer coisa bonita. Eu só peço que alguém me salve, mais nada.


Eu não tinha como lutar. Não sabia que ela cultivava um passado tão triste, e por mais que eu quisesse, eu não poderia ajudá-la, eu não poderia salvá-la de si mesma. Então apenas me encolhi, e ela logo entendeu o recado. Despejou meu corpo naquela cela escura, junto a outros cadáveres e sumiu.

Sei que não vou durar muito nessa clausura, e logo serei apenas mais um corpo nesse monte, mas também sei que nenhuma dor que eu traga comigo, vai ser maior do que a dor que ela aceitou carregar pelo resto da vida.