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quinta-feira, 18 de março de 2010

Anjo Negro

Ela é só um pequeno anjo que corre pelas ruas vazias da noite. Teve suas asas arrancadas, e caiu em um plano de fogo. Ela foge todos os dias, enquanto suas penas negras vão crescendo aos poucos. A música ecoa alto pelos corredores avermelhados, não existe mais o som das harpas, agora é só uma batida, com vozes que tentam dominá-la, com mãos que tentam trazê-la para baixo. Ela não pode chorar, as lágrimas iriam inundar o vazio que seu coração deixou, e ela não poderia mais respirar. A estrada começa a se estreitar, os atalhos acabam, e o cheiro de enxofre a faz tropeçar.
Ela consegue uma pequena fresta aberta, localizou os pedaços perdidos e remontou seu próprio coração, que ainda sangra e tem vários ferimentos, mas muitos já cicatrizados. Ele está mais forte agora, regenerado pela dor.
Suas roupas são escuras, seus cabelos envoltos de ódio, seus olhos exalando um ar angelical. Ela tem posse de seu coração, suas asas negras. Caminha sem destino. Junta do chão os caídos, sorri como prova de gratidão.
Não existem mais perfeições, ela se tornou um erro, uma máquina mascarada, com a pintura borrada, com as unhas afiadas, ela está pronta para mais batalhas, cravou um punhal em si mesma, antes de qualquer decepção, criou imunidades, correu através de espadas, ela sabe que vai vencer.
"Você aprende com o tempo, são todos iguais, basta aprender moldar cada um deles conforme lhe convém!"
Ela é só mais um anjo negro, que sobrevive neste mar de tempestades de areia, imortalizando seus passos, enquanto não chega ao céu.
Me perdoe se sou ela!

Anjo das Sombras


Como você se sentiria ao saber que é apenas um anjo vagante neste mundo de sombras? Como você se olharia no espelho, ao perceber que ganhou asas negras, e sua missão é apenas proteger? O que você acharia de sua alma, se soubesse que você é apenas o reflexo invertido dela? Com que olhos você procuraria uma solução, se soubesse que você é a resposta para todas as perguntas?
Ela apenas aceitou seu destino, vestiu suas asas e voou em um rumo desconhecido. Ela não serve pra mais nada, além de uma amiga, além de uma proteção, aquele porto seguro onde você estará seguro de todos os males impostos pelo mundo. Ela caminha no escuro, se esconde nas sombras, a noite a guia até seu castelo, e ao velar teu sono ela implorará perdão divino por sentir algo proibido aos anjos, mas renunciará seus sentires, ignorará seus pesares, ela é apenas um anjo, é irrelevante o que sente, só importa o que seus protegidos estarão sentindo nesta noite. O frio acobertará seu coração machucado, mas suas forças serão renovadas ao nascer do sol. Novamente ela caminhará ao teu lado, mesmo que não a possas ver, cobrirá tua cabeça das loucuras, guiará teus olhos ao certo, segurará tua mão para que não caias. Ela é apenas um anjo, e já se conformou com isso.
Caminhe pelo paraiso, enquanto ela paga por seus pegados nos vales sombrios, sorria, enquanto ela chora suas lágrimas, corra, enquanto ela se cura das suas feridas...
Ao seu lado, não há nada além de um vazio, não há ninguém, mas no chão, existe sempre um par de pegadas a mais, preste atenção. Não grite sua solidão, ela nunca te deixará só, não se jogue nos lamentos, ela sempre estará ali pra te ajudar, mesmo que não possas ver o quão grande e forte é o amor que ela sente por ti.
Não és o único, agora já existe mais um, uma seria o certo, um protegido e uma protegida, aqueles agraciados com o sorriso que ela apresenta, aqueles de quem ela segura as mãos e encaminha para um bem-estar desproporcional.
A protegida pode perceber sua presença, ela se mostra real, ela está logo ali ao lado, mas seu protegido não vê nada além de um vazio, talvez uma brisa constante, ele não quer enxergar, mas isso não importa, ela estará ali para quando ele precisar.
Agora ela corre de mãos dadas com sua protegida, brinca, sorri, enfeita seu rosto com alegrias inventadas, e deixa seu coração sangrar sem medo ou culpa.
Mas ela não dorme, ainda não, vigia o sono do seu protegido, afaga seus cabelos durante a tempestade, e o faz dormir enquanto desenha mundos paralelos cheios de conforto para ele, que dorme tranquilo, sem saber que alguém o protege constantemente.
Ela é apenas um anjo, que caminha nas sombras pra se esconder, apenas um anjo, que vestiu suas asas e aceitou seu destino.

Sufoco

Esta bolha, esta maldita bolha que me aprisiona nestes pesadelos infundados. Meus gritos se prendem, me sufocam. Minha vida se limita em uma gaiola dourada, o perigo está lá fora, as danças estão do outro lado, e eu aqui, vendo tudo ir morrendo pela tela de um espelho. Deixem-me voltar a ser uma imagem, cansei de ser um reflexo, um reflexo distorcido, uma alma vagante entre os mundos, um par de sapatilhas jogado fora.
Incrível como conseguem fazer um sonhador desistir dos seus próprios pensamentos. Deve ser tão gratificante, apunhalar quem não pode se denfender.
Meu tempo está acabando, as paredes estão se fechando, e eu aqui, essas correntes são pesadas demais, estes cadeados não têm chaves, a ferrugem dominou todo o lugar, enxofre é o cheiro que predomina, cade as luzes, o céu?
Solte a adaga, já não há mais carne para você perfurar aqui!
Ah não! Mas que tormento, as vozes, sempre elas. Meu corpo é só sangue nesta bolha de plástico vagabundo, meus gritos malditos ecos presos em minha própria alma.
Está tudo escurecendo, não há mais vida, é só um mar de fogo e vozes arruinando meu último fio de sanidade.
Sangue, sangue por toda parte, dor, chicotes, medo, pavor. Se é um pesadelo não me deixa acordar, porque minhas algemas são apenas carvão riscado em meus pulsos. Há fogo, muito fogo, mas o calor não se compara ao meu sufoco naquela bolha.
Ar, eu preciso de ar, o cheiro é tão forte. O desespero me leva à loucura, eu já estou correndo, não existem saídas, as portas estão trancadas, não há fonte de oxigênio, meu corpo, ah meu corpo está se desfazendo, estou virando pó, os gritos estão sumindo, minha vista está morrendo, o cheiro, não existe cheiro, é tudo só, pó!

Tortura

O vermelho dos meus olhos se misturam com os roxos em meu rosto. Os pontos nos lábios, enquanto meus braços se envolvem em minhas pernas procurando ar. A cabeça abaixada, a garganta seca, o corpo nu, sangue sobre um palco criado, a água quente do chuveiro, o vidro embaçado, as dores de mais um dia de auto tortura.
Os visinhos se enlouquecem com a música alta, não quero que ouçam meus gritos, essa dor que me consome ao lembrar de ti em cada letra. O gosto de sangue já marcado nos lábios, os perfuro com os dentes toda noite em que não sinto teus beijos me dizerem boa noite.
Me jogo contra parede recitando todos os poemas que te dediquei, relembro todas as nossas conversas, reclamo de todas as tuas promessas... Malditos planos que nunca se concretizarão!
Essa é a minha hora do dia, ou da noite, já nem sei mais, não deixo que abram a cortina do quarto. É o momento que mais odeio, ou o que mais amo. Preciso dessa tortura diariamente, lembrar de tudo o que me fazia bem, e que hoje só me faz sofrer, é como uma droga, que me alucina, que me tira do meu próprio eu, e que me faz curar todas as feridas. Um dia, sei que não precisarei mais delas, sei que vou conseguir olhar o sol, ou enxergar as cores desse mundo caótico, mas enquanto eu não alcanço meu troféu por tantas dores, continuo com minhas torturas a procura de ar.

Pulsos


Um coração. Batendo fraco. Já cansado. De funcionar. E gritar. Calado. Dá alguns salpicos. Rapidinhos, como se quisesse sobreviver. Mas logo pára. E espera. O amanhecer.
Barulho. Números. Um longo suspiro que corta a noite. Telefonema. Notícias. E todo mundo se junta para correr desesperadamente sem paradas ao quarto que anuncia. O coração se cala. E volta. Suspiros lentos.
Demora. Sinal de vida. Sem pressa. Batendo. Pouco a pouco. Unicamente. Com duplicadas.
Uma esperança desejada. Forças reunidas de um fundo próprio. O coração dispara, quer bater, se fazer ouvir, apita o aparelho sem exitar. Felicidade em volta, todos gritam, nada se ouve, e de repente, mais uma batida. O coração pára.

Trinta Minutos

E vem o doce badalar da meia-noite. Não importa que horas sejam, será sempre meia-noite para o relógio antigo, ecoando no vazio do quarto. O ponteiro indo de um lado para o outro, por inércia, é o único retrato naquela penumbra. Uma pequena faixa entre a vela e ela. Parafina gasta, lutando contra o tempo enquanto aquele pavio, já cansado, persiste em se manter aceso com a força da ventania lá fora e os pequenos respingos de chuva a molhar o assoalho de madeira. O silencio predomina, são só murmúrios as lamentações dos lábios dela, e ainda que gritasse, as vozes em sua cabeça seriam mil vezes mais enlouquecedoras. Caminhos que poderiam ter sido feitos, vontades que poderiam ter sido preferidas... nada mais faz sentido. O passado é um templo e, de joelhos, ela já não quer mais rezar. Trinta minutos, esse é o tempo e não haverá nada além, apenas brasa e fumaça. Unhas a rasgar a madeira vermelha, olhos a perfurarem a noite em laminas cortante.
O que eles dirão quando o quarto estiver em chamas?
Água para abafar o silencio, costuras para pregar a boca calada, não há escapatória!
Pilhas novas para o que já é velho, dezoito minutos é tudo o que resta. Tudo será consumido pelo terror que as retinas podem criar. O ranger dos dentes é só mais uma música para um filme de terror. Relâmpagos, trovões, deixem a tempestade apagar o fogo, amenizem a dor, anestesiem o que quer se libertar. Um anjo a costurar as próprias asas, remendando o coração com pregos enferrujados.
Tic, tac, tic, tac, tic, tac, quase uma bomba relógio. Segundo a segundo, pontinhos desenhados em traços sangrentos, nove minutos é o que resta. As torneiras abertas, os vazamentos proibidos, a água já sobe pelas paredes. Manchas do que contarão historias, diários escritos no teto, um mundo submerso.
Um, um, um! Que os vidros sejam resistentes o suficiente para agüentar a pressão, que as paredes mantenham-se intactas para a cena final! Não há ar, inflamem os pulmões, é só mais uma tempestade a ressoar. Aquela vela e ela, a maldita vela e ela. Os olhos avermelhados, brasas que gritam por socorro. As unhas quebradas, traços do assoalho nos dedos. Essa é a condição, esse é o momento final.
Zero, zero, zero! O limite fora submetido aquele desafio e lá ela permanece. Uma volta inteira no relógio, um caminho árduo sem restantes, uma soma sem fatores, nada vezes nada igual ao vazio. Não, não, não! Lá vem, está chegando, mais uma vez, alguém pare o mundo! O tempo enlouquece, desaparece, engole, toma, ela, eu, o infinito, não há nada aqui, a vela e eu.
E vem o doce badalar da meia-noite. Não importa que horas sejam, será sempre meia-noite para o relógio antigo, ecoando no vazio do quarto. O ponteiro indo de um lado para o outro, por inércia, é o único retrato naquela penumbra. Uma pequena faixa entre a vela e ela. Parafina gasta, lutando contra o tempo enquanto aquele pavio, já cansado, persiste em se manter aceso.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Noite


As patas estão batendo forte contra o chão. Forte demais, rápido demais. Mas o cavalo agüenta. É o mais forte e veloz da aldeia. Ele fora escolhido a dedo, fora selecionado. Uma vida eterna ao lado de sua dona. Uma vida de cumplicidade, uma vida de morte.
As botas da mulher estão batendo forte. Forte demais, ansiosa demais no couro do animal. Mas ela não o machuca, só quer que ele se apresse.
Os dois pares de olhos brilham na escuridão. Olhos feitos de fogo, olhos manchados de sangue. Doce mel que os mantém vivos.
O primeiro raio de sol já brilhou no horizonte, eles sentiram a chicoteada os atingir as costas. “Mais rápido, garanhão.” A moça pede, sabe o que acontece com quem não cumpre a lenda. Malditas lendas. Maldita noite. Não fora produtiva, e ainda deixou cicatriz em sua mão.
O galope pode ser ouvido ao longe, mas não há ninguém para ouvir.
A saia dela voa, tecido nobre, caro, vermelho. A blusa preta combina com o tecido, o que despertou o olhar daqueles que a viram fugir. Uma pele tão clara, um cabelo tão ruivo.
Só faltam mais alguns quilômetros. Poucos quilômetros.
O cavalo dispara. Parece voar. Quem sabe consiga. Não demoram 3 minutos para chegar ao castelo.
Oh lar, doce lar.
Ela corre, deixa seu amigo em um lugar especial, fecha as janelas, ninguém a ajuda, ela não precisa de ajuda. As cortinas negras deixam a sala escura. Nenhum feixe de luz. Finalmente a paz.
Ela está cansada, precisa de um banho.
As roupas rasgadas ganham o azulejo branco do banheiro, e um corpo morto jaz na banheira de água quente.
Nenhum batimento. Nenhuma respiração. Mas ela sorri.
Festará amanha. Fará um banquete a si própria. Sangue. Da melhor qualidade.
Risos são ouvidos pela imensidão do castelo, ela sabe o arrepio que isso causa aos seus empregados, mas não se importa. Amanha estarão todos mortos para que ela se satisfaça. É só para isso que servem.
É a hora de dormir. Um sono profundo. Um sono sem sonhos. Logo anoitecerá, e ela precisará de forças para preparar o jantar.