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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Receita contra dor de amor


Sinta-se como se estivesse morrendo, com uma faca em seu peito. Pense como se tivesse sido quebrado em mil pedacinhos, pensando em seu perdido amor.
Chore lagrimas, chore sangue com seu coração quebrado por dias, meses, anos, e nunca irá sarar, a dor de perder quem ama é a mesma coisa que morrer, sua vida não faz mais sentido, "por que viver, qual o proposito?".
Abra seu coração, faça uma pessoa com sorte de ter você, acredite no amor, reviva com o poder de curar corações partidos.
Abra seu coração para viver novamente, tendo alguem para proteger para viver junto a você.



Essa prosa poética é da autoria de Renan Jato Braga, que conseguiu me encantar com linhas maravilhosas, com apenas 13 anos. Parabéns, piá, tu merece um cantinho aqui xD

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mil noites



É mais um dia de festa na corte. Um novo casal para ser torturado, uma nova fogueira esperando pela carne fresca. Não entendo como todos podem celebrar estes infortúnios, é tão... cruel. Dizem que ele é um vampiro, teremos a prova hoje. Que a seduziu com seus poderes, e que a carrega para esse mar de tempestades. Ela? Houve rumores de que era uma bruxa, capaz de controlar os elementos, capaz de ter o demônio incorporado em seu rosto angelical. Não posso saber a veracidade dos fatos, sou apenas um criado que se esquiva de pernas curiosas, e se esconde entre essas pilastras de cristal.
Já é o segundo dia que ela está ali. Os braços erguidos para que os pulsos possam ser segurados pelas algemas, pendurada pelo teto. Os pés, mal encostam o chão. Estão descalços, frios, tão frios que se tornam quase azuis. O inverno castiga nossos dias, tão forte que chega a congelar os dedos, já castigados, da pobre moça presa. Seus olhos, fechados, escondem as olheiras de intensas horas de tortura. Parece um anjo, um anjo pagando pelos pecados do mundo. A pele, tão clara, quase se confunde com o holofote direto em seu rosto doce. No corpo, esticado pelas correntes, peças em vermelho púrpura. Realeza. Pano gasto, sujo, rasgado na altura dos joelhos, preso à cintura por um cinto de pregos. A blusa perdeu uma das alças, e agora, frouxa, dança no corpo com o vento que passa entre o corpo cansado, encharcado de sangue e angustia.
- Tragam o vampiro!
Ordens. De quem? O rei está longe, distante o suficiente para não ouvir os gritos chorosos da filha, tão forte, que fora capaz de agüentar tantas atrocidades em apenas dois dias. Ele vem. A calça colada ao corpo, onde o rubro se confunde em tecido e sangue. A camisa, rasgada e suja, como a dela. Os olhos negros, tão negros como o carvão. Parecem famintos, olham ao redor e são capazes de devorar qualquer um que retribua o olhar. Parece feroz, um animal! Ele se debate, mas parece tão sem forças. Uma cruz grudada no peito, cravada na carne, cruz de prata, retirando suas resistências, levando-o ao fim. Os grilhões riscam o chão, fazendo com que o ruído seja um modo de abafar os gritos da dor a qual ele é apresentado. Dias sem comer. Ele continua a brigar, lutando pelo resto de vida que ainda tem, até que seus olhos encontram os dela.
Você pode ver sem precisar de lentes especiais. Os olhos deles se acalmam, em um verde claro. Os dela se abrem, mostrando o cinza quase branco que os clareiam. Um sorriso em cada lábio, uma lágrima em cada face. Ela reúne forças de todo corpo para se mexer. A vontade de tocá-lo, de dizer o quanto o ama. Ele vai ao chão com um golpe de estaca. Ainda dolorido, ergue a cabeça para lançar um beijo à sua amada. A retribuição vem com um sorriso tímido, além dos lábios cortados.
- Carrasco? Chicote.
O som do couro estalando no ar parece interromper aquele momento tão único dos dois. O segundo estalo vem quente nas costas frias dele. A carne se recupera com dificuldade, mas ele permanece firme. Novamente o couro dança, encontrando as costas do rapaz com crueldade. Ela grita, esperneia, sabe o quanto aquilo dói, sentiu na pele poucas horas antes. Ele parece pedir para que tenha calma, aguentará firme, como deve ser. Ela não pode aceitar, o ama, mais do que a vida, mais do que o ar que já é raridade em seus pulmões pressionados pelo frio. Os olhos dela ficam ainda mais claros, olhando para o teto. Sabe que daqui a pouco virá o dia, e ele não vai resistir. Seus lábios se mexem, como em uma oração. Palavras rápidas, sem sentido, é mesmo uma bruxa? O que é aquilo em suas costas? A carne está rasgando, sangue escorrendo por todo corpo, ele sente o cheiro, doce aroma que adora sentir. Está louco pelo sangue dela, está louco por ela! Asas! Estão nascendo asas nas costas da garota. Novamente gritos, ela grita tão alto quanto os urros que ele solta pela dor do corpo machucado. Asas tão lindas ela tem. Um anjo? Não! São asas negras como os olhos de corvo que ele tivera segundos antes. Penas reluzentes e majestosas. São tão grandes que podem cobri-la por inteiro. Ela se entrega. O corpo fica completamente pendurado pelas correntes. Não tem mais forças, suas asas esgotaram o que mantinha dentro de si.
- Guardião?
Flechas. Homens com armaduras prateadas, espadas, estacas e arcos prontos para atirar. Os chicotes se cessam, ele é jogado em um canto qualquer.
- Abra os olhos, meu amor, abra os olhos.
A voz dele sussurra como um sopro na direção da sua menina. Uma brisa tão poderosa que a faz obedecer. O rosto está manchado, gotas de sangue escorrem de olhos tão claros. Ele chora, suas lágrimas são como a chuva que bate em pedras de gelo no teto. A primeira flecha. O primeiro grito de dor que ela deixa escapar. Ele se agita, mais três flechas acertam suas asas, e uma outra perfura seu abdômen. Parem, parem, parem! E ninguém para. Parecem se divertir com aquela tortura. Dois homens vão até a garota, beijam seu rosto cansado para provocá-lo, enquanto arrancam suas penas com as espadas. Ela já não agüenta nem mais gritar de dor. Desmaia.
Ele se desespera. Reúne as forças de mil soldados e levanta. O corpo empurra os homens que vem em sua frente, e ele segue, cambaleando até o corpo dela.
- Reaja, reaja!
Sussurra da mesma maneira que antes, na esperança de que ela ouça. Ele tem poucos minutos, o sol já está vindo e sabe o que vão fazer. Ele precisa dela, ele precisa, ao menos, ver a luz dos seus olhos antes de morrer. Viveu tantos séculos naquela espera, que não pode deixar que escape por entre os dedos como água.
- Eu não... consigo.
Foram as únicas palavras que ela disse, de forma murmurada. Os homens se afastaram, deixaram os dois ali. Ele sentado, apoiando a cabeça nas pernas dela, e ela pendurada, sem forças para lhe acariciar.
Estão todos rindo. Malditos! Não podem ver o horror que eles passam. Não entendem que o maior sofrimento do qual estão passando, é ver a pessoa que amam sendo machucada e estar ali, amarrado, acorrentado, sem poder salvar.
Poucos minutos se passam, minutos de conforto talvez, até que novamente a voz ordena um trágico fim.
- SOL!
Um grito de guerra emanado pelos soldados eufóricos. O dia amanhecera, eliminariam aquele maldito vampiro de uma vez. Ele permanece quieto, aproveitando cada milésimo de segundo em que pode desfrutar do corpo dela. Sabe que nunca mais a verá. Ela abre os olhos, inchados, com dificuldade.
- Eu te amo.
Seus lábios moldam as palavras sem som. Ele as repete igualmente, sorrindo. É carregado para o centro, o peito inflamando, os olhos despejando cascatas de lágrimas. Um ruído. O teto está se abrindo, pouco a pouco. A luz do sol está adentrando o lugar com raios pequenos, mas que procuram o corpo do vampiro. São tão finos, que parecem agulhas perfurando sua carne. Ele não vai gritar, sabia desde o começo e não quer assustá-la. Fecha os olhos e se lembra dos momentos em que passaram juntos. Brincadeiras, brigas, risadas. Não importa o que aconteça, ele lembrar-se-á dela.
- Eu te amo.
Ela repete em voz alta agora. Ele a olha e, desconcentrado, sente o facho de luz que vem direto em seu corpo. Como um reflexo, se joga pra trás. Aquilo era a pior de todas as dores que já havia experimentado. Procura a sombra, quer escapar, quer tentar por mais uma vez estar ao lado do seu amor. Ela o olha fugindo da morte e seus olhos se acendem como brasa. Vermelho, tão vermelho que mal posso descrever. Um grito mais alto e ela é capaz de arrebentar as correntes que prendiam seus pulsos. Vai ao chão mas cai em pé. Que diabos está acontecendo? Seus dedos parecem cortar as correntes como se fossem papel, e as flechas não mais atingem seu corpo que antes vagava exausto. Ele sorri. Sabe o que está acontecendo e, ainda que não goste, sabe que o demônio interior dela os dará uma chance.
- Pela luz divina e pelas sombras demoníacas, eu os condeno a mim!
Sua voz parece como a de um trovão e seu sopro leva todos os guardiões e soldados ao chão com um único golpe. Seus olhos percorrem todos no local, como um predador pronto para aniquilar, mas ela nada faz, apenas protege ele com o próprio corpo, enquanto faz o dia ir embora de maneira mágica.
Tudo escuro e um vento sombrio corta o rosto daqueles que riram. Mil noites, é assim que seguirá, porque ela assim determinou e ele assim quis. Miguel nunca mais ousará a torturar nenhum casal, ele encontrou aqueles que queria e descobriu-se fraco perante a imensidão daquele amor. Nessa noite, uma nephalin e um vampiro voltarão para casa, eternos, como deve ser.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Vingança


Ajoelha-te! Tua posição deve submeter-se à tua queda.

Olha-me! Veja os reflexos da minha vingança.

Ouça-me! Quero que teu corpo estremeça ao sentir o poder da minha voz.

Cala-te! Pois agora é a vez dos meus lábios denunciarem o pavor dos teus pesadelos.

Eu nunca pude sorrir a grandiosidade de uma vingança, e o sabor das sobremesas amargas do esquecimento fez apodrecer a vontade que me consumia de um horror aos olhos famintos que me olhavam no espelho, mas já que este é o meu sonho... Vamos aproveitar a fantasia.

Eu quero ouvir os teus gritos de pavor ao sentir a lamina cortar teu corpo. O mesmo fio de corte que me desenhava cicatrizes eternas noite passada, hoje cobre tua carne com o odor forte de sangue. As mesmas pedras de sal que me escorriam dos olhos, aplacando as feridas expostas que me deixavas de presente, hoje ardem em teus machucados, apodrecendo-os com o veneno que escorre em vermelho.

Que teu peito inflame com todo o ódio que descarrego de minha alma neste instante. Que teus olhos derramem toda a dor da qual me livro e que possas, em teu leito de morte, entender qual é o desespero de morrer. Que o sufoco que engata em tua garganta seja forte o suficiente para te mostrar o quanto o ar faz falta em momentos como esse. Como a necessidade de respirar se torna absurda e a futilidade deste ato complete o quadro de existência. Eu sei bem como é esta agonia que te suspende ao limite. Eu deixei de respirar por dias, inflando meus pulmões apenas com lágrimas doloridas. Eu sangrei por dias, indo além das expectativas dos teus planos malévolos. Eu morri, mais do que as sete vidas que descrevem como ápice dos felinos, auge da sorte.

A única coisa que me separa desta sua vivencia, é que eu venci. Eu sobrevivo dentre os cacos do cansaço, eu triunfei perante aos teus chicotes cortantes no ar. E tu te afogas nos meus delírios.


quinta-feira, 18 de março de 2010

Amor Psicopata


Frank acordou com o corpo todo dolorido, sentia dificuldade em abrir seus olhos, ou em balançar a cabeça. Sentiu seu corpo pesado e molhado, tentou se mexer, mas não conseguiu, estava amarrado, estava sentado. Sentia correr um liquido grosso de sua boca, sentia o cheiro forte de incensos, podia ver as velas acesas naquele lugar frio, escuro, sujo, molhado, sombrio.
Ficou desnorteado, não sabia como tinha ido parar ali, gritou por socorro, mas seus lábios doíam, aquele liquido tinha gosto de sangue, deveria ser, seus olhos estavam pesados, sentia dores por todo seu corpo, e apenas o eco vazio de sua voz fraca passava pela sala. Foi então, que ouviu passos, aliviou-se, estava a salvo, alguma alma abençoada o tiraria daquele terrível pesadelo.

Sorriu, por mais que seus lábios doessem, sorriu ao ver a figura se aproximar em passos lentos de seu corpo aprisionado em uma cadeira de madeira velha. O homem, vestia uma manta negra, uma capa, com um capuz que impedia Frank de ver seu rosto, não importava, ele estava a salvo.

- Por favor, me tire daqui!

Foi tudo o que a voz fraca de Frank o permitiu dizer, e depois, apenas se ouvia o som de uma gargalhada demoníaca, provinda do homem da capa preta. Frank então, se assustou, tudo estava perdido, aquilo não era um pesadelo como na noite passada, não, era real, e muito, pois ele conseguia sentir as dores.
O homem, pegou uma das velas, e dirigiu-se de volta a Frank, rodeando, como um predador que analisa com cuidado sua presa, arrancando suspiros de medo de Frank. Aquele cheiro, o perfume do homem, não lhe era estranho, suas curvas escondidas pela capa, o balançar de sua cintura ao caminhar, seus gestos, era confuso demais, ele conhecia de algum lugar tudo aquilo. O homem, então, retirou sua capa, de costas a Frank, que olhou pasmo. Era Gerard, seu namorado, seu amor. Impossível não reconhecê-lo naquelas roupas pretas, seu andar sensual, aos olhos de Frank, sua pele extremamente clara, seus cabelos escuros. Respirou fundo, não acreditava, o que ele queria, o que ele pretendia? Sua mente não parava quieta, tinha que arrumar uma forma de sair dali.

Gerard, não falava nada, apenas olhava Frank com um olhar demoníaco, percebia em seus olhos uma loucura pouco comum em um relacionamento amoroso. Seu sorriso, era psicopata, seus dentes travando-se em uma linha entre o medo e a paixão de Frank, que pedia por ajuda, e apenas recebia tapas que machucavam ainda mais seu rosto já fraco e esmurrado. Sentiu mais sangue lhe invadir a face, escorrendo por sua roupa, que já estava manchada, permanecendo intacto nas mãos gélidas de Gerard. Aquele não era o seu Gerard, era um demônio, ou qualquer outra coisa que possa ter se apossado do seu amor. Custava a acreditar que aquilo tudo era real, e só o fazia quando sentia as cordas lhe cortando o pulso.
Olhe em meus olhos, Frank.
- Gerard, o que está acontecendo? É alguma brincadeira?
- Brincadeira? E você acha que eu brincaria com algo que eu realmente sinto?
- Então me diga, por favor, o que está acontecendo?
- Olhe nos meus olhos, e diga que me ama. Preciso ouvir isso antes da morte.”
- Morte? Que morte?
- Apenas me diga, Frank.
- Sim, eu te amo, Gerard.
- Era tudo o que eu precisava ouvir.
- O que fará comigo agora?
- Você não imagina? – Gerard voltou a abrir seu sorriso doentio, e pegou uma faca de seu bolso esquerdo, passando pelas ataduras das mãos e pernas do menor, que estava amarrado à cadeira.
- Você vai me matar, meu amor?
- Acho que não sou capaz de ser tão cruel, ainda.
- E o que quer antes disso?
- Você sabe. – Gerard, passou a alisar o membro do menor, por cima da calça.

O maior pegou na mão do menor, ajudando-o a levantar-se, e o beijou perdidamente, seria o último beijo de seu amor. Passou a acariciar-lhe a cintura, com desejo, com cuidado, com prazer. Frank, com medo, com dor, passou a permitir tais ações e liberdades do maior sobre seu corpo, e enquanto Gerard se perdia em seu êxtase, Frank aproveitou a oportunidade e pegou a faca que havia no bolso de Gerard, e em um ato rápido fincou-a nas costas do maior, que começou a olhá-lo com dor, deixando que lágrimas de sangue escorressem por sua face. Seu corpo estava ficando sem vida, seu coração havia sido brutalmente assassinado, não de uma forma convencional, mas da pior maneira possível.
Correu o máximo que pôde, sem direção, com dores, sem destino, queria apenas fugir daquele lugar que o causava arrepios. Achou uma estrada, e correu por ela, estava frio, estava escuro, o dia ainda estava amanhecendo, e seus ferimentos não o deixaram ir muito longe. Seus olhos morriam em lágrimas, afinal, ele amava Gerard apesar de tudo, e agora, ele estava morto, morto por suas mãos, que estavam imundas pelo sangue do mesmo.
Encontrou um taxista que passava pelo local, pediu que ele o levasse sem fazer perguntas até sua casa, pagou e ao entrar novamente, fechou todas as trancas que haviam de segurança. Tomou um banho rápido, fez uma mala com coisas necessárias para alguns dias, pegou todo dinheiro que guardava em casa, entrou no carro e sumiu.
Após alguns dias, ligou de uma cidade esquecida por Deus, deixando a casa a venda, e as a responsabilidades de seu trabalho com seu amigo. Não era muito difícil encontrar um trabalho novo na cidade, ele era jovem, bem formado, conseguiu fácil.
O dinheiro estava acabando, quando recebeu a noticia da venda da casa. Sentiu-se aliviado, e tentou respirar novamente.
Os dias se passaram, 3 meses mais precisamente, e Frank se encontrava feliz em sua pacata vidinha. Chegou em casa, crente que continuaria assim por muito tempo. Preparou um almoço delicioso, esperava por sua nova namorada, e ouviu as batidas na porta. Correu para atender, estava ansioso, e quando abriu a porta, seu terror voltou a tona.
Ele, com suas roupas pretas, sua pele clara e seus cabelos escuros, renovado, e com um sorriso mais maníaco do que o anterior.

- Sentiu minha falta?
- O que você quer?

Gerard levantou a mesma faca que Frank, inocentemente havia usado para tentá-lo matar, e mirou na garganta do menor.

- Olhe nos meus olhos, e diga que me ama. Preciso ouvir isso antes da sua morte.

As 12 badaladas


Primeira badalada:
Quando Ryan abriu os olhos, estava em um local estranho, diferente, que nunca havia estado. Fazia frio, muito frio, estava de noite, era um beco escuro, silencioso, cheio de poças de água anunciando que a chuva tinha acabado de passar. Procurou por alguém, mas nada viu além de uma cerração assombrosa. Correu para o meio da rua, e assim que piscou...

Segunda badalada:
Viu ele. Uma capa negra, uma cartola igualmente escura, correndo por aquelas ruelas vazias, fazendo o som de seus passos ecoarem no silêncio imposto pela madrugada. Piscou...

Terceira badalada:
O homem misterioso já estava ao alcance de suas mãos, seria fácil puxá-lo e ver quem era, e porque fugia. Foi o que fez, segurou firme sua capa, e virou seu rosto, coberto por uma máscara, e assim que a puxou, não resistiu e piscou...

Quarta badalada:
Tudo estava diferente, as ruas estavam claras, as pessoas caminhavam com seus trajes de época, as crianças brincavam nos cantos, as lojas abriam, o sol reinava em uma paz absurda. Nada condizia com a verdade, e novamente, lá estava o homem da capa. Não agüentou e piscou...

Quinta badalada:
Se via correndo na direção do misterioso homem, não sabia que caminho seguia, suas pernas estavam se mexendo sozinhas, ele apenas seguia o que elas faziam, e corria, corria desesperadamente esticando suas mãos para alcançar o homem. Estava chegando perto, quando piscou...

Sexta badalada:
Seus olhos encontraram um chão sujo, ao seu redor podia sentir o frio ultrapassando seu corpo ferido, a lama da rua sujando suas roupas e as sombras do homem correndo... Mais uma vez, piscou, era inevitável piscar a cada segundo.

Sétima badalada:
Já estava sem forças, cambaleando por ruelas tortas, vendo imagens distorcidas, vazios se misturando com o ar pesado, berros, sussurros, músicas fúnebres, e seu corpo estendido ao chão. Uma mão lhe tocou, mas ele piscou...

Oitava badalada:
Era o homem da capa, com sua máscara de ferro, e um punhal ardendo em sangue. A máscara não era tão grande a ponto de cobrir-lhe os lábios, que sorriam um sorriso maníaco, psicopata, entorpecido. Seus olhos, com lágrimas rasas tornaram a piscar...

Nona badalada:
Ryan já prendia o homem contra a parede, seus olhos exalavam ódio, e suas mãos exibiam uma força que nem mesmo ele sabia de onde vinha. Jogou seu corpo contra o dele, para aprisioná-lo ainda mais, estava pronto para tirar sua máscara quando ouviu o som de uma badalada do relógio e piscou...

Décima badalada:
Novamente ele corria atrás do homem mascarado, que fugia deixando sua capa voar com a brisa que assombrava as ruelas. Deixando rastros de sangue pelo local. Ryan corria o máximo que podia, se sentia fraco, mas não desistia. Lutou, mas não conseguiu evitar e piscou.

Décima primeira badalada:
O cenário havia mudado pouco, ele corria pelas esquinas de um cemitério. A densa neblina o assustava mais do que as lápides apodrecidas e os sons que emitiam os animais, quebrando o silêncio do seu medo. Já não se ouviam mais passos, não era possível ver nada, só ele sentado sobre um túmulo cheio de gravetos derrubados pela chuva. Ele queria piscar, mas não conseguia, e com seu devaneio o homem surgiu sobre seu corpo, como um demônio carnívoro, segurando seus pulsos firmemente com apenas uma mão, e a outra segurando um punhal de onde escorria o sangue que caía em gotas no seu rosto. E com uma das gotas, ele piscou...

Décima segunda badalada:
Seus olhos se abriam com medo, e já não havia ninguém lhe segurando, levantou em um impulso, e correu sem ter caminhos traçados, quando viu o mesmo homem às sombras de uma árvore com folhas secas. Se aproximou, e o homem não se mexia, e quanto mais se aproximava, mais claramente pode ver que ele segurava um coração sangrando em suas mãos. Tinha uma ferida aberta no peito. Ryan correu para ver quem ele era, e ao tirar sua máscara caiu pra trás, acordando em sua cama, com um peso sobre seu corpo.
Abriu os olhos e lá estava ele, o homem da capa, Brendon, seu namorado, com um punhal em suas mãos

- Não Brendon, não...

Apenas pode-se ouvir gritos desesperados de dor, e logo após ter matado seu namorado, Brendon segurando um coração sangrando em suas mãos.

- Seu coração será só meu!

Bem vindo à minha morte

Posso ver todos correndo, fugindo de uma mentira que eles mesmos criaram, inventando um mundo perfeitamente contraditório, em suas imaginações fúteis.
As vozes estão gritando, os ecos se acumulam em minha mente, os corações vão acelerando, fazendo-me escutar seus batimentos ensurdecedores, e ninguém entende. Sou só mais uma louca no meio da praça, procurando explicações para confusões diárias.
A pistola está em ponto de ataque, as espadas sobrevoam baixo, por cabeças perplexas, desenhadas, inventadas.
Essa é a perfeita mentira que resolveram criar, flores de plástico morrendo, artefatos simbolizando corações destruídos, este é meu mundo estraçalhado por este machado, e brutalmente costurado com pregas de aço, infeccionando as feridas que estão cicatrizando.
Eu te apresento o ódio, prazer, este é o meu sangue, que é apenas mais um enfeite nesta estante de órgãos apodrecidos com o ar poluido pelo veneno.
Eles bebem, festejam, contemplam uma estátua marcada a ferros, acorrentada por grilhões demoníacos, este é o meu presente, seu caixão.
São idiotas demais, não podem aceitar que quebraram seus próprios sonhos, e ainda querem fugir das portas que deixaram aberta ao medo. Estes são teus pesadelos, sejas bem-vindo a eles.
Talvez você entenda como funcionam os males deste jardim, depois de leves sofrimentos, talvez você aprenda curar suas feridas. Mas, não se importe, adentre estas maldições, é tudo um bloco falso. Não se envolva, transporte-se;
Um dia você entenderá. [Se puderes agüentar até o fim]
Bem-vindo à minha morte!

Anjo Negro

Ela é só um pequeno anjo que corre pelas ruas vazias da noite. Teve suas asas arrancadas, e caiu em um plano de fogo. Ela foge todos os dias, enquanto suas penas negras vão crescendo aos poucos. A música ecoa alto pelos corredores avermelhados, não existe mais o som das harpas, agora é só uma batida, com vozes que tentam dominá-la, com mãos que tentam trazê-la para baixo. Ela não pode chorar, as lágrimas iriam inundar o vazio que seu coração deixou, e ela não poderia mais respirar. A estrada começa a se estreitar, os atalhos acabam, e o cheiro de enxofre a faz tropeçar.
Ela consegue uma pequena fresta aberta, localizou os pedaços perdidos e remontou seu próprio coração, que ainda sangra e tem vários ferimentos, mas muitos já cicatrizados. Ele está mais forte agora, regenerado pela dor.
Suas roupas são escuras, seus cabelos envoltos de ódio, seus olhos exalando um ar angelical. Ela tem posse de seu coração, suas asas negras. Caminha sem destino. Junta do chão os caídos, sorri como prova de gratidão.
Não existem mais perfeições, ela se tornou um erro, uma máquina mascarada, com a pintura borrada, com as unhas afiadas, ela está pronta para mais batalhas, cravou um punhal em si mesma, antes de qualquer decepção, criou imunidades, correu através de espadas, ela sabe que vai vencer.
"Você aprende com o tempo, são todos iguais, basta aprender moldar cada um deles conforme lhe convém!"
Ela é só mais um anjo negro, que sobrevive neste mar de tempestades de areia, imortalizando seus passos, enquanto não chega ao céu.
Me perdoe se sou ela!